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16 de agosto de 2014

Três poemas de Fernando Fiúza

Maceiota

Fernando Fiúza

Onde Mangabeiras,
ora cimenteira, concreteira, vidraceiral;
onde Poço,
sempre um córrego podre;
onde Farol,
ora candeias furando o escuro
(como de resto o país);
onde Ponta Verde,
ora ponta pardo-fumê;
onde Jatiúca,
ora baldio balneário
emporcalhado de sobras
de pão e plástico;
onde Centro,
hoje roída franja
quarada de deambulantes;
onde mirantes,
hoje monturos;
onde menina acanhada,
hoje putinha assanhada, cartãodescreditada.

Do livro Alagoado (2008)


Novelo

Fernando Fiúza

Não se entra a soco no jardim da musa:
uma ponta de faca sai da porta
na direção da sua mão que confusa
já não sabe se escreve ou se se corta.
Sossega, deixa o verso aparecer
– agulha de sol na poça de chuva
incide na moeda que fissura
teus olhos tão cansados de beber.
Bem sei que toda insônia é pesadelo;
levanta, rega as plantas, faz um chá,
acende outro cigarro, vai no espelho
– Teus olhos tão cansados de chorar –
e o verso desce às cordas num novelo
feito de sangue e nuvem, devagar.

Do livro O Vazio e a Rocha (1992)


Palavras do Vento

Fernando Fiúza

Levo o que posso, o que não, quebro, tenho remorso, volto, faço-me fresca, assobio na janela e dou golpes mortais. Sou como Deus: sabe-se que existo, mas ninguém me vê, só o que animo até a destruição – pela tosse, pela água, pelo fogo – de tudo que tomba e voa. Cachorro da moléstia, mordo o homem e o que ele fez – de um penteado ligeiro ao Coliseu. Folheio livros, mas prefiro jornais, na rua ou no deserto. Gosto muito de pó, de entranhá-lo na pele, nas ventas do cavalo corredor e na cabeça das mulheres vazias; também gosto de bandeiras, de dar vida às cores fazendo-as tremer. A água quis me peitar, mas sendo fêmea e boa de ver, corria contra o tempo – cruel com tudo que é belo. Um dia aqui, outro amanhã e nada restará sobre a Terra, só eu, sonhando com o vácuo, lembrando a febre dos homens, a foda entre as flores e as palavras que levava quando havia primavera.”


Do livro Tira-prosa (2004)