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8 de maio de 2010

Poema de Cícero Melo

Para mamãe fazendo uma omelete

Mamãe, eu te reflito como um lago
A cor do céu estende na água clara.
No teu olhar esconde-se minha alma,
Quando cansado de viver naufrago.

E quando a solidão, à noite, afago,
A noite crespa que me fere a palma,
Meus cabelos de dor teu canto espalma,
E, menino de novo, durmo e vago.

Mamãe – foi tão errada a rota e vã
A batalha tecida em meu afã,
Que de tanto morrer não me sei morto;

Pois, sempre que me vejo ao léu da vida,
Busco-te a vela que não sei perdida,
Ó nau primeira do primeiro porto!

(Este soneto foi escrito em 09/05/87. Minha mãe morreu no Natal do ano passado. C.M.)

4 de maio de 2010

Poemas alagoanos

Preparação da manhã

Gonzaga Leão

É duro dizer, criança
filho do triste operário
do sofrido camponês
que em vez dos belos brinquedos
que te fariam feliz,
dar-te-ei canhões fuzis
e a noite feita de medo;
contar-te-ei em segredo
(não histórias pra dormir)
que neste imenso país
somente o rico é feliz
só o rico tem porvir;
e contar-te-ei também
que o pão que falta em teu prato
sobra no prato de alguém;
que tua roupa nenhuma
não mais serve a quem a tem.

Mas direi no entanto a ti
(rudemente enquanto falo)
que nessa estrada de agora
não muito distante a aurora
já avia seus cavalos
com seu jaezes de fogo
e ardentes ferros nos cascos
com sua fonte de sol
a celebrar-se nos olhos,
que deixarão claridades
de manhãs onde passarem:
- e não haverá mais sede
boca não dessendentada
rios que não tenham ponte
de paz e fraternidade.

E no chão de todo o mundo
transformado em bem comum
rebentarão as sementes
e o pão será permanente
na mesa de qualquer um.

(Maceió/Alagoas - Fevereiro de 1963)


Soneto elegíaco

Francisco Valois

O meu olhar, insone, devassando
o silêncio da sombra refletida:
- no ventre do cristal se congelando
os vestígios da imagem consumida.

Na linguagem das mãos, enclausurando
o momento da morte acontecida,
há, transparente e vaga, modulando
uma canção fugaz e indefinida.

No espelho, formas de luar estáticas
e, no longínquo sono, mãos aquáticas
são o apelo da morta que naufraga.

Supero dimensões de continentes:
- na salsugem dos olhos languescentes,
Envolto o morto amor desfeito em vaga.