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20 de agosto de 2009

Poesia alagoana - Triste Bothanique

José Geraldo Marques

O que em Alagoas remanesce
da floresta tropical
há uma voz que farfalha
pois é carnívora essa flor
que por dentes tem punhal
seus desejos são lupinos
e ferino seu arsenal
ai, "fina flor da canalha"
que devora quem trabalha
e destila o mel do mal
tua grandeza é pequenina
pois teu adubo é a hemoglobina
do jornaleiro braçal
cortar o mal pela raiz
ou a raiz pelo mal?
quem não tem medo desse bicho
desse bicho folharal?
que tira fótons das trevas
desde o tempo do marechal?
ai, "fina flor da canalha"
deixai um rabo-de-palha
na assembleia das gralhas
abrir asas sobre vós
e entre abutres, metralhas
iguanas, surucucus
misturai a vossa voz
ao crocitar dos urubus
ai, triste estado que cumpre
o seu fado de naufrágio
em um mar de canavial
onde as usinas têm nomes doces
e os donos têm bala e sal:
essa sua geografia é da fome
a sua biologia não come
e sua história é canibal
ai, "fina flor da canalha"
para cumprir teu fadário
nesta hora terminal
invoco é uma rasga-mortalha
para cortar o sudário
do teu destino letal
vade retro flor-canalha!
vade retro flor-chacal!
eu te esconjuro flor-navalha!
eu te esconjuro flor-do-mal
!

In Dialética, ano 7. no 5. Maceió,
Ed. Linear B, março de 2001, p. 103.